Mesmo sem garantias, ainda!

 


Mesmo que o amor não nos dê garantias, mesmo que nada esteja de fato pronto, ainda é possível se arriscar ao (des)encontro com o Outro, digo se arriscar, pois o amor é, muitas vezes, decisão e renúncia; ele é a rosa, mas não sem espinhos.

E mesmo onde há a promessa de facilidade, parece não ser assim tão fácil, não é assim “tão” garantido, porém não é impossível. Ele continua ali, nas coisas, como Erixímaco disse no Banquete e do caos vem a harmonia, talvez do desencontro venha o que é possível. Parece estranho, mas ainda com o médico filósofo, o amor traz harmonia e faz isso dos opostos e nas entrelinhas.

Muitas vezes bem diferente do que nos conta Aristófanes, da busca incessável e constante pela metade que um dia foi perdida e, para além do poeta, estamos sempre as voltas com essa lógica do amor que traz completude, dos felizes para sempre hollywoodiano. Porém, pode ser que o amor esteja mais no talvez, no grande talvez da vida, exatamente naquilo que não nos dá garantias, naquele ponto em que nos leva à guerra, que nos faz travar nossas batalhas do dia a dia. Batalhas que surgem do terremoto que o caos nos traz e que nos colocam em movimento, o amor nos coloca em movimento!

Ao nos colocar em movimento, mesmo sem garantias, ele ainda nos salva. Do desencontro à possibilidade, da possibilidade ao amor, do amor ao infinito – quase finito – de nós mesmos. Mesmo que sem garantias, ainda o amor!


Tela: Recorte da obra "The Divine Eros defeats the Earthly Eros" do pintor Giovanni Baglione.

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